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Toxina botulínica no tratamento da dor: o que a ciência mostra sobre bruxismo e neuralgia do trigêmeo

Toxina botulínica no tratamento da dor: bruxismo e neuralgia do trigêmeo

Por Dr. Marcelo Oliveira Nunes | Atendimento em Dermatologia em Moema e Vila Mariana, São Paulo

Quando se fala em toxina botulínica, a primeira associação costuma ser com o tratamento de rugas e linhas de expressão. Mas essa é apenas uma parte do que essa substância pode oferecer. Há décadas, a toxina botulínica também é estudada e aplicada com fins terapêuticos, no tratamento de quadros de dor muscular e neurológica, incluindo o bruxismo e a neuralgia do trigêmeo.

Neste texto, explicamos como a toxina age no organismo e o que as pesquisas científicas mostram sobre seu uso nesses dois quadros específicos.

Como a toxina botulínica age no corpo

A toxina botulínica do tipo A atua bloqueando a liberação de neurotransmissores na junção entre o nervo e o músculo, reduzindo a contração muscular excessiva. Em quadros de dor, ela também parece interferir na liberação de substâncias ligadas à transmissão da dor, o que ajuda a explicar seu efeito analgésico em algumas condições neurológicas.

Por causa desse mecanismo duplo, relaxamento muscular e modulação da dor, a toxina passou a ser estudada em contextos que vão muito além da estética.

Bruxismo: o que os estudos mostram

O bruxismo é caracterizado pelo hábito de ranger ou apertar os dentes, geralmente durante o sono, e pode causar dor na região da mandíbula, desgaste dentário e sobrecarga no músculo masseter, um dos principais músculos usados na mastigação.

Diversos ensaios clínicos randomizados investigaram a aplicação de toxina botulínica diretamente no músculo masseter de pacientes com bruxismo. Um desses estudos, publicado com acompanhamento de até seis meses, observou redução significativa da dor percebida pelos pacientes nas primeiras semanas após a aplicação, com efeito sustentado por cerca de três meses antes de um gradual retorno dos sintomas.

Uma revisão sistemática com meta-análise, que reuniu dados de dez estudos publicados entre 2000 e 2022, encontrou redução significativa da força máxima de mordida após a aplicação da toxina, quando comparada tanto ao uso de placas oclusais quanto a injeções de placebo, com efeito mantido em avaliações de até três meses.

Vale destacar que os resultados variam entre os estudos, e alguns apontam que os efeitos sobre a dor tendem a ser mais consistentes do que os efeitos sobre a atividade muscular durante o sono propriamente dita. Isso reforça que a indicação e a expectativa de resultado devem ser sempre discutidas individualmente com o profissional responsável.

Neuralgia do trigêmeo: dor em choque e o papel da toxina

A neuralgia do trigêmeo é uma condição neurológica que provoca crises de dor intensa, descritas como choques elétricos, ao longo do trajeto do nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade de grande parte do rosto. É considerada uma das dores faciais mais intensas descritas na literatura médica.

Um dos mecanismos propostos para explicar o efeito da toxina botulínica nesse quadro envolve a inibição da liberação de substâncias associadas à transmissão da dor nas terminações nervosas, o que ajudaria a reduzir a sensibilização responsável pelas crises.

Uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados, reunindo dados de mais de 390 pacientes, concluiu que a toxina botulínica do tipo A apresentou efeito superior ao placebo na redução da intensidade da dor, com resultados observados em avaliações de um, dois e três meses após a aplicação. Outra revisão sistemática, com dados de quatro ensaios clínicos randomizados, chegou a conclusões na mesma direção.

Assim como no bruxismo, os próprios autores desses estudos apontam a necessidade de mais pesquisas com amostras maiores para consolidar essas evidências, o que reforça que a toxina deve ser considerada uma alternativa terapêutica dentro de uma avaliação individualizada, e não como solução única ou definitiva.

A avaliação individual faz toda a diferença

Os estudos citados aqui mostram um caminho promissor, mas nenhum tratamento deve ser considerado indicado para todos os casos. Fatores como a causa da dor, o histórico de saúde do paciente e a resposta a tratamentos anteriores influenciam diretamente se a toxina botulínica é ou não uma opção adequada.

Por isso, qualquer decisão sobre o uso terapêutico da toxina botulínica deve partir de uma consulta e avaliação individual com um profissional habilitado, que vai considerar o quadro clínico completo antes de indicar qualquer conduta.

Referências

Trials com toxina botulínica no masseter para bruxismo, incluindo estudo controlado randomizado com acompanhamento de até 6 meses. PMC9719743. Revisão sistemática e meta-análise sobre eficácia da toxina botulínica no bruxismo. Aesthetic Plastic Surgery, 2023. DOI: 10.1007/s00266-023-03256-8 Ensaio clínico randomizado e controlado por placebo sobre toxina botulínica no bruxismo do sono. PMC7150956. Meta-análise de ensaios clínicos randomizados sobre toxina botulínica tipo A na neuralgia do trigêmeo e dor neuropática periférica. Brain and Behavior, 2019. DOI: 10.1002/brb3.1409 Revisão sistemática e meta-análise sobre eficácia e segurança da toxina botulínica A na neuralgia do trigêmeo. PMC4932020.

Conteúdo educativo, elaborado com base em literatura científica revisada por pares. Não substitui avaliação presencial e não configura oferta ou indicação de procedimento. Cada caso exige história clínica, exame e discussão de expectativas antes de qualquer conduta.

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